Delírio da noite
Eu sinto: sempre sou o presságio,
como se, antes de mim, soasse um aviso:
- Vai doer.
Vejo-me efêmera,
um vulto que passa sem deixar rastro,
um nome que não chega a ser dito.
Sou um corpo marcado pelo desejo alheio,
marcado a ferro quente em brasa e fantasias,
um rascunho, num guardanapo
na boca de quem nunca
e não sabe ler.
Sem alma e,
e sem nome.
M e r c a d o r i a.
Mas até os objetos têm nome - às vezes -,
e eu nunca,
eu não.
Não importa: o nome que eles desejam, eu invento.
Sinto a fome que me caça na noite,
ela que veste salto, perfume, batom e maquiagem barata,
e dança sobre mim
como se eu fosse palco,
nua.
Eu não sei o que é afeto.
Nunca senti o peso de um abraço
Não aperta,
não mente,
não me consome.
Nunca me ofereceram abrigo -
só urgências que desaparecem no gozo.
Empurram-me sempre para a sombra,
como se a luz do dia
denunciasse minha existência.
E então, eu sobrevivo,
e só existo à noite,
onde os olhos não perguntam meu endereço,
nem onde moram meus sentimentos.
Eu sou um corpo.
Não importa quem
E me usam,
com
e sem consentimento.
Respiro ofegante no caos que borbulha
entre vidro retalhados e migalhas pontiagudas.
Há um grito que me desassossega.
Eu quero ser o sol de alguém.
Mas, ai...
Eu queria arder sem pedir desculpas,
brilhar sem ser segredo,
ser tocada como quem cuida
e não como quem invade.
Queria ser amada
sem contraindicações,
nem rodapés,
nem vergonha,
sem bulas,
sem silêncio,
nem censuras,
sem negações.
Que me vissem inteira,
sem julgamentos,
nem curiosidade
em fagulhas.
Mas que não doesse,
nem me adoecesse.
Que houvesse um dia -
não esse dia qualquer,
mas um dia meu -,
onde eu não fosse intervalo,
recreação,
nem exceção,
nem erro,
nem culpa.
Sol. (Só) - existência.
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