domingo, março 29, 2026

No silêncio de meus vazios,
cresce um vácuo,
quando até o relógio parece desistir do respirar.

Eu escuto o pulso da minha presença
soar em paredes mudas.

Há um lugar oco que não grita,
e é pior,
porque, feito vírus,
se instala devagar,
como quem não pede licença para doer.

Todas as noites,
me deito ao lado de ninguém,
sinto o peso de um corpo ausente,
vestido de desejo,
embrulhados em meus lençóis.
É a falta que se esfrega,
e o pedido por afeto que soluça,
é a ausência que me abraça.

Desejei ser porto,
e me tornei mar morto,
pequeno, fechado, hipersalino,
sem vida.

Quis muito ser casa.
Hoje sou só corredores cinza, longos - frios
onde ninguém escolhe pousar.

Tem dias que a solidão
não é escolhe a víscera,
ela rasga meu peito sem bisturi.
De quem eu era,
pudesse gritar:
eu quero ser amado.

E então eu sussuro,
afônico, 
rouco
mesmo sem ouvidos do outro lado:
- Fica.

O mundo passa,
a vida pulsa
eles nunca ficam,
e eu permaneço.

Como um pedido não atendido,
como uma carta nunca aberta,
como um coração pálido
que aprendeu a bater baixo
para não incomodar ninguém. 

terça-feira, março 17, 2026

 

Coitado dele,
visto como bem colocado na vida.

Coitado dele que não tem sono,
nem casa,
nem autoestima,
nem cargos.

Coitado dele que vive buscando o que não tem nome.
Coitado dele que é pedinte
e não tem consciência
mendiga piedosamente o sentir alheio.

Coitado,
ele que não chora,
nem revida,
não grita.

Não xinga.

Coitado dele
que carrega malas sem endereço,
que sangra
porque sente demais.

Coitado dele
que nem mais tem alma.

Coitado dele
que não teve na vida amor-próprio,
pois priorizar amar aos outros.

Será que ele sabe o que era amor?

Coitado dele
que espera, esperou
e esperará ser salvo por alguém que nem existe,
que nem tem nome.

Coitado dele que nem dorme,
não transa,
que não tem cornos,
nem credenciais,
nem visto americano,
nem seguro de vida,
nem pele alva,
nem privilégios,
nem passaporte diplomático,
nem paixões,
nem sonhos,
nem pelos,
nem projetos,
nem cartas de referência.

Coitado dele,
coitado dele,
que acredita ser feito de amor
mas que amado nunca foi.

Coitado dele
que ri para todo mundo,
mas é triste.
E na melancolia ele se afaga,
ele se afoga.

Coitado,

coitado dele.

não mais respira.