No silêncio de meus vazios,
cresce um vácuo,
quando até o relógio parece desistir do respirar.
Eu escuto o pulso da minha presença
soar em paredes mudas.
Há um lugar oco que não grita,
e é pior,
porque, feito vírus,
se instala devagar,
como quem não pede licença para doer.
Todas as noites,
me deito ao lado de ninguém,
sinto o peso de um corpo ausente,
vestido de desejo,
embrulhados em meus lençóis.
É a falta que se esfrega,
e o pedido por afeto que soluça,
é a ausência que me abraça.
Desejei ser porto,
e me tornei mar morto,
pequeno, fechado, hipersalino,
sem vida.
Quis muito ser casa.
Hoje sou só corredores cinza, longos - frios
onde ninguém escolhe pousar.
Tem dias que a solidão
não é escolhe a víscera,
ela rasga meu peito sem bisturi.
De quem eu era,
pudesse gritar:
eu quero ser amado.
E então eu sussuro,
afônico,
rouco
mesmo sem ouvidos do outro lado:
- Fica.
O mundo passa,
a vida pulsa
eles nunca ficam,
e eu permaneço.
Como um pedido não atendido,
como uma carta nunca aberta,
como um coração pálido
que aprendeu a bater baixo
para não incomodar ninguém.