terça-feira, abril 14, 2026

IN visível

Ninguém vai me salvar.
- Eu sei!
- Eu sempre soube.
Mas finjo - como quem fecha os olhos
para ver se o mundo muda de lugar.

Há um silêncio que pesa no meu peito,
um tipo de espera que não se explica,
desoriente mas ampara, e eu carrego.

Iludido
Os dias passam
como areia entre os dedos -
pálidos demais para enxergar,
calados demais para suportar.

E espero.

Espero um sinal,
um toque,
o acaso bem calculado.
Uma esperança murça
Um milagre sem santo.

Espero alguém atravessar à porta
com soluções simples
ou promessas decoradas. 
Um punhado de paz,
um norte ou sentido,
um porção d'mim
de volta.

E ninguém vem.

Não ouço passos no corredor,
nem recebo cartas na caixa postal,
nem chega um mensagens de voz
nenhum e-mail,
Nada.
Nada que lembre meu nome.
Nenhum mensageiro bate à porta 
O meu pensamento grita urgência(s).

Inerte.

E ainda assim, espero.

Mesmo quando o peito aperta,
mesmo quando falta  ar,
mesmo quando tudo em volta diz
que não há nada vindo -
NADA.

Eu espero.

O tempo não cura, amarga.
Ele alonga a espera,
Não existe remédio para angústia
Ela se entranha nas paredes do pulmão.

E quanto mais o tempo passa,
a ferida cresce.
o relógio não ajuda.

O agora, atormenta.
Marejo no desespero,
na desperança de que esteja errado.

Sonho: em algum lugar,
ainda haja uma exceção.

Mas não há.

Não há santo atravessando os tapetes,
nem mãos estendidas com respostas prontas.
Não há palavras sagradas que reorganizam o caos,
nem forças invisíveis para me escolher.

Não há.

E mesmo assim,
eu construo cenários:
um encontro improvável,
um olhar vago que entende tudo,
um convite para viver o que eu nunca vivi.

Eu imagino o alívio,
a leveza,
a transformação suave
de quem finalmente foi visto.

Mas a porta não abre.

O telefone não toca.

O mundo não muda.

E eu continuo aqui,
entre o que sei
e o que insisto em acreditar.

Porque, no fundo,
é mais fácil esperar 
do que encarar o abismo
ecoando que ninguém vem.

E então a vida passa -
sem anúncio, sem aviso, sem cerimônia.

E ao fim, tudo vira cinzas.

quinta-feira, abril 02, 2026


Delírio da noite

Eu sinto: sempre sou o presságio,
como se, antes de mim, soasse um aviso:
- Vai doer.

Vejo-me efêmera,
um vulto que passa sem deixar rastro,
um nome que não chega a ser dito.

Sou um corpo marcado pelo desejo alheio,
marcado a ferro quente em brasa e fantasias,
um rascunho, num guardanapo
na boca de quem nunca
e não sabe ler.

Sem alma e,
e sem nome.  

M e r c a d o r i a.
Mas até os objetos têm nome - às vezes -,
e eu nunca,
eu não.
Não importa: o nome que eles desejam, eu invento.

Sinto a fome que me caça na noite,
ela que veste salto, perfume, batom e maquiagem barata,
e dança sobre mim
como se eu fosse palco,
nua.

Eu não sei o que é afeto.
Nunca senti o peso de um abraço
Não aperta,
não mente,
não me consome.

Nunca me ofereceram abrigo -
só urgências que desaparecem no gozo.

Empurram-me sempre para a sombra,
como se a luz do dia
denunciasse minha existência.

E então, eu sobrevivo,
e só existo à noite,
onde os olhos não perguntam meu endereço,
nem onde moram meus sentimentos.

Eu sou um corpo.
Não importa quem
E me usam,
com
e sem consentimento.

Respiro ofegante no caos que borbulha
entre vidro retalhados e migalhas pontiagudas.
Há um grito que me desassossega.
Eu quero ser o sol de alguém.

Mas, ai...
Eu queria arder sem pedir desculpas,
brilhar sem ser segredo,
ser tocada como quem cuida
e não como quem invade.

Queria ser amada
sem contraindicações,
nem rodapés,
nem vergonha,
sem bulas,
sem silêncio,
nem censuras,
sem negações.

Que me vissem inteira,
sem julgamentos,
nem curiosidade
em fagulhas.
Mas que não doesse,
nem me adoecesse.

Que houvesse um dia -
não esse dia qualquer,
mas um dia meu -,
onde eu não fosse intervalo,
recreação,
nem exceção,
nem erro,
nem culpa.

Sol. (Só) - existência.

Era eu

Era eu - e ainda sou - o eco de um vazio,
um quarto escuro onde o tempo se esqueceu.
Carrego no peito um silêncio tardio,
um peso que o mundo em mim escreveu.

Era eu nas promessas que o vento levou,
nas mãos que partiram sem nem me tocar,
nos olhos de quem, sem motivo, fechou
as portas que eu quis tanto atravessar.

Fui feito de espera, de quase, de nãos,
de noites compridas sem sonho ou ardor,
de um peito cansado pedindo razão
pra tanta ausência vestida de amor.

Era eu - tão só - na multidão vazia,
um corpo presente, uma alma distante,
um nome esquecido na própria agonia,
um verso perdido, quebrado, errante.

Acreditei tanto no que não ficou,
dei tudo de mim pra depois me perder,
e em cada pedaço que o outro levou,
restou menos força pra me refazer.

Hoje sou sombra do que imaginei,
um resto de tudo que um dia senti,
um fim que em silêncio jamais aceitei,
um eu que insiste em não ser mais de si.

E ainda assim sigo - não sei por quê -
entre ruínas que chamo de vida,
tentando entender o que há de valer
num coração que só sangra e duvida.