quinta-feira, abril 02, 2026

Era eu

Era eu - e ainda sou - o eco de um vazio,
um quarto escuro onde o tempo se esqueceu.
Carrego no peito um silêncio tardio,
um peso que o mundo em mim escreveu.

Era eu nas promessas que o vento levou,
nas mãos que partiram sem nem me tocar,
nos olhos de quem, sem motivo, fechou
as portas que eu quis tanto atravessar.

Fui feito de espera, de quase, de nãos,
de noites compridas sem sonho ou ardor,
de um peito cansado pedindo razão
pra tanta ausência vestida de amor.

Era eu - tão só - na multidão vazia,
um corpo presente, uma alma distante,
um nome esquecido na própria agonia,
um verso perdido, quebrado, errante.

Acreditei tanto no que não ficou,
dei tudo de mim pra depois me perder,
e em cada pedaço que o outro levou,
restou menos força pra me refazer.

Hoje sou sombra do que imaginei,
um resto de tudo que um dia senti,
um fim que em silêncio jamais aceitei,
um eu que insiste em não ser mais de si.

E ainda assim sigo - não sei por quê -
entre ruínas que chamo de vida,
tentando entender o que há de valer
num coração que só sangra e duvida.

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