terça-feira, agosto 18, 2020


Eu minto o tempo todo

a

ti busco no ladrilho

prateleiras, 

nas dobradiças

na poltrona 

no ônibus

de ida ao Rio

feito um pavio, riu.

Busco-te em mostruários

nos telefones públicos

em catracas

nas paredes rabiscadas

no pretérito.

Em igrejas

nos papéis

cartões e bilhetes.

Mentes.

É o barulho que me alerta  

e me bagunça

e me enlaça

e chegam os nós

a cego

me prego

as voltas

a fio

a frio

Tudo é um vazio que roda

Corrente

Lonjuras

Ah, me falta ar.

A água é sal duro.

Te vejo 

no movimento da maré

à sombra

Te busco no arrepio

nas ranhuras

no ronco d'um motor

Te busco em minhas entranhas

na maldade exaltada

na minha inquietude adolescente

Te vejo em pausa

nas horas que passam

passo a passo

me desfaço

feito gelo em temperatura ambiente

Te pego na bagunça 

atrás das portas

na cominheira

sobre o fogão

nas chaminés

embaixo da mesa

entre os dedos

em meu juízo

nos miolos das fechaduras

em minhas trincheiras.

Nessa guerra

qu'eu te acho 

E resgato como

minha salvação.

Tua existência

atiça cada átomo

do meu corpo

Lei do engano.

Quiz 

Vou vomitar você 

antes do fim dessa poesia 

pedaço por pedaço.

quinta-feira, agosto 13, 2020

Juntas tu 
fazes de tuas palavras 
o que quiseres.
O que é teu
está escrito
e dito.

Vais ler. 
Eis o que reserva - a - ti
um maço de dedos
embriagados
(vê) lados.

quarta-feira, agosto 05, 2020

N U A
no ar
um perfume barato
cabelos molhados
cheiro de madrugada
Na cara
Nada
somente a cara
sem cor
sem remendos
somente a pele
e sulcos
buço
No seio
uma tatuagem
santa
na altura
do mamilo furado
um ao lado
d'outro
gêmeos, com ascendente em leão.
N'umbigo eco
de certo, oco
moço.
Não
No chão
serpentina
roupa suada
macerada
caladas
Na mesa
a sopa ex-fria
Esguia
Na mão
um cigarro
aceso
desenho defumados
de-formados.
Na boca
dentes e lábios
marcado 
emvermelho
linha por linha
desenhadas.
Moça
Na coxa
meia luz
esquecida.
Pálida, quase
incompreendida.
Na nuca
o peso de palavras
não ditas
Na coluna
uma cicatriz
Um olhar
gritando para
o universo
Enquanto
nu
ralo
borrado com rímel
cinta-liga
e cílios
artificiais.
o amor agoniza.
Para a lisa.

sábado, julho 18, 2020


Do nada, um sentimento
que não quero definir.
E chegou com ânsia, um desejo sem pé nem cabeça,
nem olhos, nem juízo
um descontrole.
E me deixei sentir, sem julgar...
Sem(ti).

E... uma falta de ser,
de ser o (eu)mesmo,
inteiro,
e em si,
(nu)
olho no olho.

Encarar-se arde.
E me abraçou pelas costas
uma carência conhecida,
aquela dissimulada.
pôs uma das mão no meu peito
outra na vista.
Chegou muda - a masoquista
a dona da situação,
com suas mentiras enfeitadas
flores,
papel presente,
e um chocolate.

E me disse: estás sozinho,
sem ninguém (até sem ti mesmo)
e o tempo tem passado
feito um fiapo d'água fria na areia.

E completou: - cheguei trazendo teu desassossego.
A'quele que te revira ao avesso...
te rouba a calma,
inquieta tu'alma
.
Eu roubo tua paz.
Sim!
A paz, a boazinha,
e que te engana.
Ela é linda,
mas é fingida.
É frigida.

Conheço-te de entranhas,
vivo em teu passado
e te assombro.

Só eu sei o que tu queres...

Queres o “amor”? Queres!
Queres afeto,
queres cartão com orquídeas,
queres quem te abra a porta,
queres a segurança que te centra,
queres noites,
lua, mar e dias quentes ar(dentes).

Queres tardes de chuva
pernas entre-laçadas,
queres passeios,
planos,
rotas de fuga,
fritas,
conversas tantas,
arte,
vinho caro,
chinelo de borracha,
carimbos, livros
Cheiro de terra molhada
passaporte riscado,
asas, malas
nu-vem.

Queres o que te a-calma,
e
tira o eixo,
queres pés descalços,
boca, aviões, chão.
música boa, sorrisos tímidos,
olhares de santo, filmes.

Cheiro de boca, cangote
pele ralada, cabelos molhados,
suor, pelos combinados,
livros novos, fumaça.

Queres cachorro,
casa branca, grana miúda
e gastronomia,
e astrologia,
e taquicardia.

Queres tempo livre
momentos intermináveis
e meia luz, bebida quente, jazz.
Convites,
Suítes.

Queres vinho barato,
porre, dança, terra,
cartão magnético
escrita cursiva,
manhãs com neblina e conchinha,
sono leve e mão pesada.

Queres arquitetura, dura
a cura, maresia
e presentes.
Queres infinita(mente)
no presente.

Eu bem te conheço,
e por isto chego
cheia de verdades.

E tem mais:
- queres presença
e a ausência que endoidece,
o ego.

Queres a sorte
de um amor pagão,
dis-simulado, cru,
original, sem amarras,
sem pretextos.
Real.

Queres paixão
naquela caixa gigante
embrulhada em papel liso
com laço de fita em brasa.

Queres a presença
peito estufado, braços desenhados,
pele áspera, nuas, suadas
geladas.

- Não baixa à vista: 
Eu sei que tu queres.

Queres sim! E se pudesses querias a.go.ra.
ah hora.

Queres cheiro de carne
misturado a perfume fino
entranhado no travesseiro ao lado,
queres fazer teu jogo,
e tua cena.

Queres perder a chão.
Descontrole.
Queres o caus.
o vacilo.

E é assim qu'eu chego,
pondo porta a baixo,
revirando a poeira dos cantos,
soprando embaixo dos  tapetes.
viro um furação...
por que eu sou a vida
gritando que tudo é marginal.

segunda-feira, julho 13, 2020
































Imagem: Pietá de Fábio Viale


IN braza

Eu estou aqui
sem identidade
nem bula
nem credenciais,
sem cartas
sem pudor
sem recomendação
sem manual.
eu e'stou a.q.u.i.

E, eis-me!
Cem certidões.

E'stou aq.ui.
sem instruções
nem endereço
sem declarações.
sem papéis
sem sobrenome
sem rubrica
sem moral
s-e-m roupa
sem poros
sem pupila
s.e.m sono
sem  fô le go
e
Nem juízo.
Nem paredes
e
nem v.e.r.g.o.n.h.a.
Nem decretos.
Só o desejo.

Um azulejo
obsoleto
marcado a ferro
feito a 4 mãos.

E sigo aqui
NU (en) canto
e no ranger dos dentes.
Na carne crua,
No sussurro.

AR-repio.

Eu não tenho passaporte
nem títulos,
nem vísceras,
nem brio,
nem língua,
nem livros,
Tex.Ti.cu.los.

Saliva,
o sal.
Fluído.

É na nata do leite
que escrevo meu nome.
Eu só tenho o nome!
Um nome.