terça-feira, junho 16, 2026

Naquela estação desamparada,
meu coração gelou.
Vagões vazios -
rangiam os dentes.

Fim de linha.

Calado, o passar da noite
dançava no rastro da flama.
Na beira do fosso,
serpentinas, brilho e fantasias
abraçavam o inverno
sem intimidade.

O trem gemia.
Aquilo não poderia ser o soar de um apito,
era um lamento.

Foi um adeus tão profundo
que o eco da minha voz entendeu.
A paragem de uma saudade
nasce da falta de si mesmo.

Eu fiquei [em partes],
gritando feito criança
em primeiro dia de aula,
na escola.

Pausei no tempo, feito aos relógios
que deixam de respirar,
e o tempo, cansado, sentou-se ao meu lado
sem qualquer ruga.

Ahh, o tempo, ele era jovem,
sem rugas, cicatrizes,
nem nariz, nem pés.
Detalhe: ele não sorria.
Não tinha boca, nem barba.

Olheiras.
Orelhas.
Olhos rasos.

Ele suava calmamente,
e tremia.

Cada vagão,
a cada passada,
meu ar
ia.

Sabe o tempo?
Ele mesmo, antes da saída,
guardou teu olhar
num cofre.

Eu, sem muito esforço,
suspirei e ruí.

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