sexta-feira, maio 22, 2026

IN S tável.

- Decidiu ficar?

Perguntou como quem acende
a última luz da casa.

- Antes de desistir (de alguém),
eu fiquei.

Não por pena.
Sequer por amor.
Fiquei por fadiga antiga
palavra presa
morando nessa casa.
Aqui até a mossa parecia mobília.

- Mas, eu não quero mais brigar, não.

Sua voz saiu baixa,
quase tropeçando em culpa.

E pela primeira vez
o silêncio não virou flecha,
atravessou cansado também.
Que nem eu.

Então o mundo parou diante do abismo:
duas pessoas remendadas

- Você não vai despedir dela?

A pergunta abriu as paredes ao meio.

Eu lembro do quadro trincar sob a estante.
 da janela tremer.
do seu olho fugir do meu
como quem previa a resposta.

(silêncio)

Porque existem verdades
que antecedem a palavra
chegam e sentam entre as poltronas
frias da sala.

- Mas eu fui.

E naquela hora
não havia superação em ninguém.

Só aquela mágua difusa
de quem percebe tarde
que amar outrem
não inumiza do erro.

- Nada daquilo que eu disse,
eu queria ter dito.

Falou olhando pro chão,
com as frases aos cacos por ali.

E quis recolher cada uma
com as mãos, 
sob o risco dos talhos.

- Eu não queria ter mentido pra você.

Nossos erros se encararam pela primeira vez,
sem advogados,
nem orgulho.
Sem a maquiagem graciosa da razão.
Dois humanos.

E depois?

Depois...
ninguém chorou feito cinema.
Não se abraçaram piedosamente.

O amor não virou música.

Nó(s).
Ficamos,
ouvindo a madrugada pingar
lentamente na cozinha.

Tu respiravas de um lado,
eu sobrevivia do outro.

Porque às vezes o amor acaba num grito mudo.

Ferido, sujo, fervendo

consequentemente
morre por inanição. 

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