segunda-feira, maio 18, 2026

 É o jeito... 

Não chore não.
Quero levar comigo
a última lembrança de tu sorrindo,
feito derradeiro clarão de lamparina
na peleja dessa escuridão.

- Tu me desculpa?
- Desculpar o quê, Zé?
- Tu nunca fez nada errado.
- Eu fiz sim.

Me perdoa pela valentia que me faltou,
queria ter te amado,
do jeito que eu carecia,
do jeito que eu precisava.
Sem medo da volante,
e dos homens,
sem correr do ronco da pistola
Sem medo de bala nem de tiro.
Sem precisar esconder esse amor no meio do mato.
Não fugir do que era nosso.
sem negar esse destino.

- Tu ia querer?
- Claro que eu ia…

(um sopro curto,
o tempo falhando no pulso)

Meu coração tá fraquejando,
mas eu quero morrer
ouvindo o teu,
como se teu compasso
pudesse guiar o meu
feito zabumba mansa
me chamando pra dançar.

Quero lembrar de tu sorrindo
que é a morada onde sempre eu quis ficar.

Zé, Zé... não vai.

Quando eu morrê,
vou simbora ligeiro,
correndo no rumo d'onde tu tiver,
Poeira,
ou curisco incandescente
floresco onde tu estiver -
não importa o caminho.
Eu vou.

Cheiroso - escuta:
- Se nesse rumo da vida
aparecer alguém
com um chamego parecido...
Tu te agarra, promete?
Não rejeita, não.
Vive por mim.

Porque te amar -
não foi erro,
nem fraqueza,
nem pecado de palavra.
Foi a coisa mais bonita
que esse sertão castigado
deixou florescer no meu peito.

Mandacaru floriu
Beleza simples
dessa que o mundo não entende,
mas o juizo padece,
reconhece.


E no meio dessa chuva de pólvora,
do alvo
da secura na boca
dos espinhos
dos estreitos na terra
das rezas atropeladas
e das despedidas,
resta a verdade
que nem a morte dá conta de arrancar.

Eu te amo.

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