Nem que eu tivesse três vidas,
sete destinos entrelaçados,
três corações em descompasso
— arritmia, asma —
ainda assim, eu respiraria você.
Antes de ti,
eu era estrada sem parada,
candeeiro sem chama,
rio raso sem correnteza.
Carregava um cansaço oblíquo nos ombros,
um desalento encardido na vista,
daqueles que coçam o olho
e ardem como pimenta curtida no azeite.
O que você fez?
Foi bubuia ligeira,
coisa à toa,
brisa gelada.
Não acredito em assombração.
Tenho minhas rezas antigas,
sopro na boca da noite,
tem coisas que Deus escreve escondido
pra ninguém entender direito.
Você veio sem mandinga.
Amor não é feitiço — é graça.
Ouve-se de longe um coração que pulsa.
O que antes era só espinho e terra rachada
virou terreiro molhado de orvalho e saliva.
Refresca a espinha como água boa de moringa.
Tu és açude sangrando,
dessedentando da língua ao pé do umbigo.
Tu me atravessaste.
E foi bonito demais, quase uma colisão.
Nem fizeste barulho.
Chegaste miudinho,
feito asa de beija-flor,
e pintaste o céu de avermelhado.
Quando me dei fé,
já tinha broto nascido,
rama,
onde morava ruína.
Oxe!
Se eu me visse mais,
me visse de verdade,
esse meu jeito torto é que me abraça
sempre que a porta se fecha pra noite passar.
Uníssono seja o tamanho da revolução que teu abraço fez.
Eu viraria o mundo pelo avesso,
rasgaria meus medos no dente,
arrancaria as cascas da alma com bisturi.
Aprendi a não caber apenas em mim:
teu cheiro me dilata.
Tem gente que passa pela vida da gente
feito sombra.
Tu não.
Tu foste meu eclipse.
Sacudiste a maré dos meus pensamentos,
desalinhaste todas as estrelas,
desregulaste o relógio.
Toda hora era eu e tu.
Não precisávamos de segundos,
nem de tempo.
Depois de ti,
até o silêncio mudou de nome.
Agora, quando a noite cai,
não pesa mais.
Ela derrete macia no meu peito.
E eu fico aqui,
com esse amor desmantelando minhas certezas,
feito rio enchendo depois da seca.
O fogo vem lambendo a lenha devagar,
a chama cresce sem ninguém perceber.
Às vezes eu acho que tu não és gente.
És encantaria.
Dessas que aparece uma vez só na vida
pra ensinar a um coração cansado
que ele é morada do que é bonito,
mesmo depois da pior estiagem..
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