Escorria pela cidade,
via as pessoas passarem com crianças,
com seus sacos de pão,
boletos pagos,
celulares no gatilho,
conversas mornas: tempo, compras e fofoca.
Vendo o vazio entranhado nelas,
fundido nas articulações.
Em cada poro entupido com maquiagem importada
a disciplina do cotidiano,
o milagre enfadonho da normalidade.
E aquilo me sufocando
como gás lacrimogêneo,
ardendo os olhos e roubando meu ar.
Essa calma artificial,
essa paz de vitrine,
que mais parece estar rindo de mim.
Fui tomado por uma ira confusa.
Meu desejo não é de matar,
mas de rasgar os cenários,
queimar os roteiros,
de soprar mofo nas cortinas,
e respingar chorume nas paredes,
instalar naquelas casas minas de ódio,
de desespero,
de agonia,
de injustiça.
Porque a vida -
a vida mesmo -
não essa da propaganda de margarina
que empurram na garganta da gente.
A vida tem rugas e ferrugem nas beiradas,
tem gritos no bom dia,
palavras entubadas,
desprezo detrás um sorriso.
Tem gente apodrecendo em silêncio -
enquanto o semáforo abre e fecha normalmente.
Tem gente que já morreu
andando pelas ruas, sabia?
E andando pela cidade,
sentindo raiva dessa mentira
e de quem ainda consegue acreditar
na coreografia perfeita dos dias.
Porque eu vi
por trás das telas:
há sempre alguém INfeliz,
s o b r e v i v e n d o.
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