sábado, maio 16, 2026

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Escorria pela cidade,

via as pessoas passarem com crianças,

com seus sacos de pão,

boletos pagos,

celulares no gatilho,

conversas mornas: tempo, compras e fofoca.

Vendo o vazio entranhado nelas,

fundido nas articulações.

Em cada poro entupido com maquiagem importada

a disciplina do cotidiano,

o milagre enfadonho da normalidade.

E aquilo me sufocando

como gás lacrimogêneo,

ardendo os olhos e roubando meu ar.

Essa calma artificial,

essa paz de vitrine,

que mais parece estar rindo de mim.

Fui tomado por uma ira confusa.

Meu desejo não é de matar,

mas de rasgar os cenários,

queimar os roteiros,

de soprar mofo nas cortinas,

e respingar chorume nas paredes,

instalar naquelas casas minas de ódio,

de desespero,

de agonia,

de injustiça.

Porque a vida -

a vida mesmo -

não essa da propaganda de margarina

que empurram na garganta da gente.

A vida tem rugas e ferrugem nas beiradas,

tem gritos no bom dia,

palavras entubadas,

desprezo detrás um sorriso.

Tem gente apodrecendo em silêncio -

enquanto o semáforo abre e fecha normalmente.

Tem gente que já morreu 

andando pelas ruas, sabia?

E andando pela cidade,

sentindo raiva dessa mentira

e de quem ainda consegue acreditar

na coreografia perfeita dos dias.

Porque eu vi

por trás das telas:

há sempre alguém INfeliz,

s o b r e v i v e n d o.

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