quinta-feira, maio 16, 2019

IN vá.cu.o


E veio ter comigo, uma tal saudade,
aquela que cheira a livro velho.
Anos folheados
com dedo molhado à língua.
Chegou empoeirada
com um punhado de feridas
carne viva.

Feito um pacote.

E eu...
Eu senti falta da rotina
do meu lugar no sofá
do carona na moto
das idas e vindas
mal-resolvidas
Ah! Senti falta de tua cama dura
do teu controle
senti falta do meu dez-controle.

Eu era entrega,
tu eras indiferença.
Nata

Senta aqui,
Vamos conversar.
E me disse:
- Eu não te amo +,
- Eu não sinto saudade.

VÁCUO

Caí num abismo ensurdecedor
Nesse dia eu morri pela metade.

E vieram os cornos
chamadas não atendidas
E as histórias, eram tantas as estórias
permiti.
Era um fantasma pálido, sem escrúpulos
nem dentes, apático, pesava 1[uma] tonelada e meio.
Mas onde estavam as provas?

Me di-vi-dia inteiro.
Eu era o sacrifício.
Eu era os eu te amo que tu não querias que eu dissesse.
Mas toda vez que eu os dizia, eu acreditava.
Suspirava.
E virei uma coisa sem nome.
Eu existia
Mas todo o dia
[eu] morria.

E me veio essa saudade de tua voz
de teu toque
de tua pele
de teus nós
do teu feijão com hortelã.
de teus pés nas minhas costas.

Eu acordava antes só para te olhar
e olhava, olhava, olhava.
quando ainda dormindo de bruços e dobravas uma das pernas
às vezes as duas.
era nessa hora q'eu sorria
sozinho.

No banheiro a vida me esbofeteava
de frente ao espelho embaçado, desbotado.
Eu vasculhava
cada chamada recebida, cada SMS era um tapa,
um soco inglês:
E doía, doía, doía
aiii, ardia!
Era lá que a verdade me batia.

Era uma dor quase esquizofrênica,  
aquela nó nas tripas,
seca feito cipó.

Dizem que a morte leva a dor, mas d‘onde vinh’a minha?

Eu voltava,
passava o café.
O café me refazia.
Eram 3 colheres de pó para 6 de açúcar
e trazia à cama com uma flor na bandeja.
Por dentro eu era todo, agonia.
E morria outra vez.
Expectativas famintas
era eu - pele e osso.

E lá veio a vida, ela mesma, a carrasca
indolente, ela sorria.
De boazinha ela não tinha nada
todas as vezes que eu morria, ela me trazia
e me arrastava pelos cabelos
ela sempre sorria
ela sabia q'eu sofria.

Estava oco
preso na casa 20
eu minguei,
fui suportando
sufocando engasgando
fui à forca
E eu morri.

Tinha passagem só de ida,
e eu fui.

Hoje eu te encontro na fila do supermercado
a conta: 13 anos
a compra: um saco cavo transparente, cheio de saudades
escrito um nome:
Mário.

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